MEUS LIVROS
Uruaçu

Marcope
I

- Alô...
- Alô...
- Bom dia, dona. Seu Luiz está?
- Está , sim senhor. Vou chamá-lo. Um instante por favor.
- Alô... Aqui é o Luiz, às suas ordens.
- Seu Luiz, eu sou o Joaquim de Oliveira, seu cliente daqui de Palmeirópolis. O senhor se lembra de mim?
- Claro, seu Joaquim!.. Como vai a família? Dona Marta, com vai ela?
- Aqui tá tudo bem, Graças a Deus. Seu Luiz, estou ligando para marcar uma consulta com o senhor para a minha filha Juliana. Ela está precisando urgentemente de um tratamento de dente.
- Tá bem seu Joaquim. Terei muito prazer em atender a senhorita Juliana. Vou ver uma vaga na minha agenda. Um minutinho, por favor.
Depois de alguns segundos:
- Seu Joaquim...
- Sim! Estou aqui seu Luiz.
- Infelizmente poderei atender a senhorita, somente Segunda-feira da próxima semana, às três horas da tarde. Gostaria de servir o senhor mais rapidamente, mas infelizmente não vai ser possível. O senhor me desculpe.
- Tá ótimo, seu Luiz. Segunda-feira sairemos de madrugada, vamos chegar aí bem a tempo.
- Se estiver bom para o senhor, seu Joaquim, eu fico muito feliz.
- Então, até Segunda, seu Luiz. Fiquei muito satisfeito e feliz em conseguir esse horário com o senhor. Já vai para mais de mês que estou ligando para sua secretária, mas nunca há vaga em sua agenda.
Seu Joaquim de Oliveira é um cliente que tem me recomendado a todos os seus amigos de Palmeirópolis, no estado do Tocantins. Importante fazendeiro e comerciante naquele município, tem uma legião de amigos.

II

Tenho andado muito atarefado, ultimamente. A clientela aumentou muito e, para complicar ainda mais, arranjei essa Presidência do Clube Recreativo Uruaçuense, que me toma muito tempo, pelo tanto de problemas que aparecem. Penso até que cometi um erro concorrendo como candidato a esse cargo, mas seu Walter insistiu tanto que eu não tive como recusar. Além disso, teve também o pedido do Roberto, argumentando, ambos, que não poderiam deixar a entidade nas mãos de um qualquer. Claro que me senti envaidecido em ser procurado por duas personalidades da maior importância na cidade, o gerente do Banco do Brasil e o Prefeito Municipal, tecendo elogios a minha pessoa e pedindo-me para ser candidato à presidência do Clube.
A tarefa de administrar o clube não é fácil, ainda mais recebendo-o todo reformulado em seus aspectos sociais e com sede nova, construída pelo presidente Walter, que, sendo Gerente do Banco do Brasil, teve grande facilidade para conseguir recursos com os mais ricos da região, e não era somente os daqui de Uruaçu, porquanto sua jurisdição vai de Itapaci a Porangatu e de Niquelândia a Crixás, que soma uma população superior a cem mil habitantes, em mais de doze municípios. Ele controla toda essa população do ponto de vista do crédito, porquanto o seu banco tem dinheiro à vontade e com juros a partir de meio por cento ao mês.
Por tudo isso, seu Walter conseguia todos os recursos necessários para o clube, enquanto foi seu Presidente. Não precisava nem pedir. As pessoas vinham procurá-lo espontaneamente para fazer suas ofertas, gratuitamente, sem pedir qualquer contrapartida.
Fui eleito e, graças a Deus, estou conseguindo fazer uma administração à qual, ninguém, até hoje, fez qualquer reparo. Esse trabalho, entretanto, tem me dado muita dor de cabeça, tomando uma parcela muito preciosa de meu tempo no consultório.

III

Estive no Correio hoje cedo. Fui lá buscar uma carta que chegou de minha terra natal, Balsas, me avisou Zé Monteiro, pessoa ligada à chefia da Agência dos Correios.
Li a missiva. Ela vem contando as novidades de lá. Novidades já antigas, algumas delas com mais de um ou dois anos de ocorridas: Geralmente falam de um que morreu, de outro que se casou. Da égua do compadre que foi picada por cobra venenosa e quase morreu. Que o fulano de tal vendeu a casa da cidade e mudou-se para a fazenda; que a família tal está arribando para São Luiz, vai levar os filhos para estudar. Coisas assim triviais no dia a dia das pequenas cidades, que interessam aos moradores.
Esta carta que recebi avisa que meu sobrinho Albino separou-se da mulher e está vindo para Uruaçu, trazendo seus dois filhos, um menino e uma menina. O irmão dele, o Manoel, já há alguns anos está morando aqui. Conseguimos para ele um emprego na Rodobrás, a Comissão da SPVEA incumbida da construção do Rodovia Belém Brasília.
Lá, em Balsas, as oportunidades de trabalho são mínimas. Os raros cargos públicos são distribuídos com os afilhados do poder. Assim. à gente pobre do lugar toca somente o eito na lavoura ou o trabalho de balconistas nas poucas lojas existentes, não chegando, em nenhuma dessas ocupações a meio salário mínimo mensal, pelo que aquela região, não obstante seu grande potencial agrícola e pecuário, é, na linguagem dos economistas, um bolsão de miséria. Por isso que a maioria do jovens, assim que atingem a adolescência, saem à procura de melhor futuro, buscando, geralmente, Goiás, como eu próprio fiz, além, evidentemente, da capital, São Luiz.

IV

Órfão de mãe ainda na primeira infância, vivendo na roça (é bom que o leitor não confunda roça com fazenda, porquanto ao que parece é moda atualmente as pessoas dizerem “vou à fazenda”; “vim da fazenda”, “meus pais, e meus irmãos moram na fazenda”, parece que com vergonha de “roça”, iniciando-se, com isso, um movimento espontâneo no sentido de extinguir do vocabulário caboclo as palavras roça e roceiro, transformando-as em fazenda e fazendeiro, respectivamente, devido ao mau conceito que os citadinos fazem do homem da roça que, na cidade, é motivo de risos e caçoadas. Fazem piadas com nosso linguajar, chamam-nos de caipira. Mas não somos somente nós, os roceiros, a escorregar nas regras gramaticais. Gente famosa como, por exemplo, o cantor Leonardo, diz: “Perguntaram pra mim se ainda gosto dela”... Sérgio Reis ganhou fama e dinheiro cantando “Toca o berrante seu moço que é pra mim ficar ouvindo”, entretanto, nunca vi, publicamente, alguém fazer piada com desses famosos. Nem com eles, nem com tantos outros que comentem erros ainda piores, se é que pode haver erros piores e erros melhores. Por aí se vê que as piadas que fazem da fala do caipira não advêm dos escorregões gramaticais, mas de sua origem social, por isso, essa vontade incontrolável de fugir da roça), fiquei aos cuidados de meu pai, que tinha, além de mim, mais dois filhos pequenos. Eu era o do meio. Embora cuidadoso, procurando dedicar-nos os desvelos que não tínhamos da mãe, seus afazeres na labuta diária no eito e no campo, ora cuidando da pequena lavoura de subsistência, ora cuidando do pequeno rebanho, não lhe deixavam tempo para os cuidados de que as crianças careciam.
Por todos esses fatos, passou meu pai a viver uma existência solitária, triste. Muitas vezes, à noite, depois do jantar, sentado no tronco de aroeira que havia no quintal - que na minha cabeça infantil tinha a idade do mundo -, vi-o chorar em silêncio. Triste, alimentando mal, preocupado, trabalhando excessivamente, não demorou muito, adoeceu.

V

A doença veio chegando devagar. Não era daqueles males que pegam a pessoa de uma vez e a deixam prostrada. Era daquelas doenças que vêm tomando conta do corpo sem que o doente perceba. Começou com uma febrezinha leve, como coisa que fosse um começo de gripe, dessas gripes comuns, passageiras, que se curam com chá, suadouro e repouso. Eu mesmo fui ao cerrado, arranquei as raízes e tirei as cascas de pau que a gente usava toda vez que tinha gripe e curava rapidamente. Eram remédios muito bons, muito fortes. Para curar gripe, era o mesmo que tirar a doença com a mão.
Papai tomou os remédios direitinho, mas nada de melhorar. A cada dia amanhecia pior. Passada uma semana, ele já quase não conseguia se levantar da rede. Então, meu irmão mais velho foi à cidade, a cavalo, e trouxe de lá uns remédios de farmácia, que custaram os olhos da cara, Pensamos, agora com esses remédios, caros, ele fica curado logo, logo. Que nada, foi o mesmo que beber água do pote. Os tais remédios não valeram de nada.
Passada mais uma semana, ele já não se levantava mais. Ficava deitado dia e noite. Mal conseguia sentar-se na rede para tomar, um vez ou outra, um escaldado de farinha de mandioca com caldo de galinha, porque comida, comida mesmo, ele não agüentava nem sentir o cheiro. Então veio minha irmã Antônia, que era casada e morava a umas duas léguas de nossa casa, preparou uns chás e uns banhos com umas folhas e umas cascas de pau que eu não conhecia. Com essas mezinhas, a doença começou a ceder, mostrando um pequena melhora já no dia seguinte. Ficamos muito felizes e ele continuou usando aqueles remédios. Daí a uns cinco dias ele se levantou, deu uma volta no quintal, tomou banho no corgo, passou uma revista nas criações, e daí por diante foi melhorando cada vez mais. Com duas semanas estava recuperado, sentindo somente um pouco de fraqueza, por causa de ter ficado muitos dias quase sem se alimentar. Decorrido um mês desde a chegada de minha irmã, papai estava perfeitamente bem, voltando a suas atividade normais.
VI

Um ano depois, quando não se pesava mais na doença, ela voltou, e voltou muito mais violenta. Co menos de uma semana, meu pai já não conseguia , sequer, se sentar na rede, clamando de fortes dores no peito e nas costas.
Estava começando a sentir dificuldades para respirar. Em alguns momentos, ficava debatendo, agitando as mãos, a boca aberta, puxando ar com força, buscando o oxigênio que lhe faltava.
Com muita dificuldade e com a ajuda de Antônia que, sabendo da recaída, veio imediatamente nos ajudar, levávamos ele para a rede armada debaixo do pé de lima, perto da bica, onde era mais fresco e ele se sentia um pouco melhor. Entretanto, com o passar dos dias, umas duas semanas desde o momento da recaída, nem mesmo esse expediente (deitar-se na rede armada debaixo do pé de lima, perto da bica) dava lhe algum conforto.
Por fim, seu sofrimento era tanto e isso nos causava tanto mal, que eu e meus irmãos, apesar de crianças, já estávamos rezando, pedindo a Deus que acabasse com aquele sofrimento, que pusesse um fim naquele sofrimento. Vê-lo se debatendo, procurando a respiração que lhe faltava, era algo que nos fazia tanto mal, que ainda hoje, já passados mais de cinqüenta anos, sinto uma gastura medonha ao rememorar aquelas cenas.
Finalmente, numa tarde de intenso calor, passado menos de um mês desde que sua doença voltara, papai entregou a alma ao criador, sem proferir uma única reclamação. Seu semblante mostrava a tranqüilidade que só se vê naqueles que viveram e morreram na paz do Senhor.

VII

Com a simplicidade de todas as coisas da roça, nós o sepultamos em um campo aberto fronteiro à casa, no cimo de uma pequena colina e erguemos ali uma cruz de aroeira, como símbolo de nossa fé. Passados os funerais, minha irmã Antônia levou-nos, eu e meus irmãos, para sua casa, e, embora com dificuldades em face da escassez de recursos financeiros e esse aumento brusco de encargos, cuidou de nós como cuidava de seus próprios filhos, tornando-se para nós o pai e mãe que perdemos tão cedo.

VIII

Nunca consegui entender esse corriqueiro fato de irmão brigar com irmão, quando o normal, a meu ver, seria a convivência pacífica e harmoniosa, ou até mais do que isso: a cultura do amor fraternal, vivendo um em função do outro, na prática diuturna da ajuda mútua, suprimindo da convivê ncia familiar a inveja e o ciúme. Mas infelizmente o que se vê ordinariamente é o desentendimento se multiplicando a cada dia. Seria isso alguma deformação de caráter, ou será, porventura, qualidade inerente à natureza humana? Quando Moisés narra a morte de ABEL por CAIM, que significação quis o narrador sagrado dar ao fato? Um dia ainda hei de alcançar essa resposta, porque nela vou encontrar a chave desse episódio que passo a narrar, que mudou a minha vida, e, quiçá, o meu destino.
Num Sábado à tarde, eu havia tomado banho, vestido minha melhor roupa para assistir a uma reza na casa de um vizinho, quando meu irmão que naquele dia ia ficar em casa, só para me implicar, mandou-me dar milho aos porcos. Ele sabia que eu não gostava de tratar de porco, por causa daquele pó que o milho solta ao ser descascado e que é danado para pinicar. Eu reclamei daquela tarefa que me pareceu inteiramente desarrazoada naquele momento, ainda mais sendo aquele dia o dia que caberia a ele essa tarefa. Ele não gostou de minha reclamação, respondendo-me bruscamente, gerando daí uma discussão com muitos gritos, palavrões e xingamentos. A gente se dava muito bem, a família era muito unida, talvez por isso essa briga me deixou muito chateado e por causa dela resolvi sair de casa. No meu entender, duas pessoas que brigassem “ficavam de mal uma da outra” e, nessa situação não poderiam conviver sob o mesmo teto. Eu tinha que sair de casa; viajar, sumir para Goiás.

IX

Decidido que “ia viajar”, que “ia embora”, comuniquei a decisão a Antônia. Ela pediu que ficasse, que eu estava com a cabeça quente, que as coisas “iam se ajeitar”. Ela ficou muito aborrecida com a notícia e, por causa disso, naquela noite não dormiu. Passou em claro, rezando, pedindo a interseção de São José de Ribamar para que eu mudasse de opinião e não viajasse.
Quando me levantei, na manhã seguinte, e vi a sua fisionomia, o quanto ela estava abatida, com sinais de que havia varado a noite chorando, fui acometido de uma vontade enorme de chorar também, de esquecer tudo e mandar a viagem para o caxaprego. Antônia era para mim como se fosse minha mãe verdadeira, eu a amava muito, por isso me fazia muito mal vê-la sofrendo por minha causa. Mas a viagem já estava decidida. Eu já tinha dito que viajaria e palavra de homem não volta atrás. A viagem estava marcada em minha cabeça e somente na minha cabeça para a Segunda-feira seguinte. Aquele dia era Terça-feira, de modos que ainda faltavam seis dias para minha saída, o começo da viagem. Quanta besteira: “palavra de homem não volta atrás”... Eu era, a bem dizer, uma criança, que mal havia entrado na adolescência. Contava, então, catorze anos incompletos. E ainda que fosse adulto, poderia muito bem, corrigindo eventual erro, repensar os fatos e rever minhas atitudes. Afinal, reconhecer quando a gente erra, não é demérito para ninguém, até pelo contrário é sinal de grandeza e de amadurecimento de caráter.
Mas naquele momento eu não tinha condições de avaliar minha atitude; de saber se estava agindo certo ou errado, de modos que fui empurrado pelo impulso próprio da adolescência e pelos costumes do lugar......
Então imaginava: nesta casa não tem mais espaço para mim. E eu sou homem e homem que é homem de verdade não agüenta bucha de ninguém e não carrega desaforo.

X

Naqueles seis dias que faltavam para o início da viagem, a Antônia se dedicou ao preparo e ã organização daquilo que, a seu ver, me seria necessário necessárias no caminho, deixando de lado qualquer outro trabalho, por mais importante que fosse, inclusive, pois, aquele de preparo de algodão para tecer uma grande rede de varanda que, havia muito tempo ela vinha planejando e que começara dias atrás. Estava preocupada e cuidava para que não me faltasse nada durante a longa caminhada, que, no seu entendimento, era de muitas mil léguas, mas que, na verdade, era apenas de umas duzentos, desde a Fazenda, ali a umas cinco léguas de Santo Antônio do Balsas até Descoberto ou Santana, em Goiás que seria meu destino final.
Minhas noites daquela semana foram povoadas de muitos sonhos maus, de muitos pesadelos e havia um sonho que se repetia todas as noites, várias vezes, que de tanto repetir, já parecia realidade.
Pelo sonho, com minha mala às costas, eu descia por um longo trilheiro, em meio a uma campina, beirando a uma vereda de buritis, e lá em baixo, no que, à distância, parecia ser um rio, pela altura da mata ciliar, se divisava uma árvore muito grande destacando das demais, não só pelo seu tamanho, mas também por suas flores amarelas, muito bonitas. Como já era de tardinha, sol entrando, eu pensava: vou tomar um bom banho naquele rio, assar um pedaço de carne e comer com farinha e rapadura. Armo minha rede perto daquela árvore e vou dormir até amanhã o sol saindo. O cansaço era enorme, havia muitos dias que eu vinha caminhando de sol a sol, tirando, pelas informações de distância que conseguia com os moradores, uma média de oito léguas por dia. Parecia que o cansaço era maior que o normal pelo fato de andar sozinho, e por não estar acostumado a jornadas tão pesadas. Mas era bom porque me fazia dormir desde quando o começava a escurecer até o clarear do dia, não me dando tempo para pensar em onça e assombração que eram os objetos de meu maior medo.
Cheguei no curso d’água, era um riacho de águas claras e frescas que corriam sobre um leito de cascalho branco e pedras redondas e lisas, onde uma grande quantidade de peixes de todas as cores saudavam o viandante que entrava na água, beliscando-lhe as pernas.
Armei minha rede num pau bem alto que me protegeria contra as onças, pendurei minha mala ali ao lado, retirei da lata de matula o necessário para o jantar (carne seca, farinha e rapadura), deixando o restante ali no alto, para no caso de eu ser surpreendido lá embaixo por alguma fera, não ter perigo de deixar lá minha matula.
Ascendi o um fogo, com lenha farta e boa que havia no local. Quando comecei a assar a carne, escutei e estralar de um graveto se quebrando, voltei a cabeça rapidamente, a uns cinqüenta metros, lá estava ela, com suas orelhinhas pequenas, sua carona redonda, lambendo os beiços. Meti a faca na bainha e rapidamente subi no pau, onde a rede estava armada. A fera, com cara de frustração, levantou a cabeça, olhando para mim como a despedir-se do jantar que lhe escapara por um descuido seu, quando pisou no graveto. Emitiu um grunhido esquisito e desapareceu por entre a vegetação espessa. Driblei a fome com um taco de rapadura com farinha de puba, mas o medo não me deixou pregar os olhos.
Esse estranho sonho quase me fez abortar a viagem. Era medo por antecipação. E que medo.
XI

Quanto mais se aproximava o dia da partida, menos eu dormia e mais pesadelos me acometiam e, foi assim que na última noite, a que antecedeu à minha saída, de Domingo para Segunda não preguei os olhos. Passei-a em claro.

XII

Sem dormir a noite toda, madrugadinha, quando a barra do dia começava a tingir o horizonte, levantei-me e fui à fonte lavar o rosto, como sempre fazia todos os dias, desde quando cheguei ali na casa de Antônia. Os galos amiudavam no pé de goiaba que era o poleiro das galinhas, e a lua cheia, raspando a copada das árvores da banda do poente, projetava sombras enormes, da casa, das árvores... Indo no trilheiro da fonte, de costas para o satélite, assustei-me com minha própria sombra que, comprida e fina, caminhava à minha frente, parecendo querer meter-me medo como as assombrações de meus pesadelos.
Após lavar o rosto, despedi-me da bica d’água, dos pés de frutas, da gangorra dependurada no galho do pé de manga; despedi-me da lua cheia – porque a lua do Goiás era outra lua, e com certeza não seria bonita como a maranhense -, despedi-me das criações, galinhas, perus, cocás, porcos e, principalmente da Cambraia, uma vaca curraleira, amarela, de chifres finos, pontudos e brancos que me sustentara com seu leite por muito tempo. Voltei para dentro de casa, sentei-me na rede, esfreguei os olhos e chorei.
Passada a emoção, fui à rede de cada um de meus irmãos, despedindo-me deles mentalmente, com uma lágrima de saudade. Ajeitei a mala às costas, que de mala tinha somente o nome porquanto era um saco de algodão tecido em casa, em que Antônia havia colocado quatro alças, uma em cada canto, onde amarrei tiras fortes de pano, fazendo aquilo que os viandantes chamavam de mala costal. O essencial para a jornada estava ali. À Antônia beijei-a na face e enxuguei-lhe uma lágrima com a manga da camisa. Em seguida, dei o primeiro passo em busca de meu destino.
XIII

No começo da viagem eu andava sozinho, o que fazia aqueles primeiros dias se tornarem ainda mais cansativos e enjoados. Sem Ter com quem conversar, os pensamentos iam tomando conta da minha cabeça, as incertezas do futuro me atormentavam muitíssimo, deixando-me em estado de quase demência. Muitas vezes, procurando fugir dessas armadilhas do pensamento, subia em alguma árvore e gritava com toda a força que me era possível, espantando os fantasmas da solidão. Outras vezes, ia apressando o passo até atingir um galope franco, voltando à marcha normal somente quando a exaustão tomava conta do meu corpo.
Lá para o décimo dia de viagem, quando acabava de atravessar um longa campina, faltando assim uns duzentos metros para adentrar o cerrado grosso, deparei com um bando de emas, mais ou menos trinta, que pareciam ser lideradas por uma ligeiramente maior e mais escura que as demais. Quando uma, com jeito de ser ainda “franga”, começou a se afastar do bando, a “comandante” foi atrás dela, emitiu um som que me pareceu um ronco, e fê-la juntar-se ao grupo.
Entrando no cerrado, o capim debruçando sobre o trilheiro não me permitia ver o chão, então fiquei atento ao menor movimento ou ruído, com medo de cobra, principalmente nas proximidades de cupins, onde é muito achacado haver ninho de serpente venenosa. Quando estava exatamente pensando no perigo da cascavel, por causa de um primo meu, que tinha uns dez anos de idade quando foi picado por uma e sofreu demais da conta; Em poucos dias sua perna apodreceu e era difícil ficar perto da rede dele, por causa do mau cheiro. Variando nos momentos de febre alta, ele gritava: Olha a cascavel aí Zezinho. Zezinho era seu irmão mais novo. Não tá escutando o chocalho dela não, surdo. Cuidado, ela vai de morder. Não durou nem duas semanas. Como vinha dizendo, no exato momento em que pensava no barulho do chocalho da cascavel, quando ela está preste a dar o bote e treme o rabo, surgiu, não vi de onde, um bicho embarafustando-se com minhas pernas, numa confusão de sons estranhos que não podia identificar, se batidas de asas, pios de ave... Seria um passarinho? Mas... No chão? Tomei um susto sem precedentes; dei um salto e um berro de acordar múmia. Com o coração quase saltando do peito pelo susto, identifiquei o agressor. Era um inhambu chororó. Essa nação de aves, em defesa de seu ninho, enfrenta qualquer inimigo, sem medir o tamanho nem as conseqüências. Quem não a conhece, não é capaz de imaginar do que essa ave tão pequena é capaz, quando age em defesa de sua ninhada.
Naquele dia, quando o sol acabava de entrar, bati pouso às margens de um regato de água muito limpa e saborosa. O lugar era um descampado, com uma bela fileira de buritis acompanhando o curso d’água. Armei minha rede nas gripas de um pé de jatobá, instalando-me lá no alto com todos os meus pertences e a matula, inclusive a cabaça d’água. Separei o necessário para o jantar, desci acendi uma fogueira, assei um naco de carne seca, comi com farinha e rapadura, fui à fonte tomei um bocado de água fresca, com as duas mãos em concha, subi para a rede e dormi como uma criança, até o sol sair.
É necessário uma explicação ao leitor sobre essa cabaça d’água que somente agora entra na história. Ocorre, que naquele sonho que tive com a onça, passei uma sede danada, porque lá em cima, na árvore, onde a rede estava armada, eu não tinha água e, por razões óbvias, não desci para beber. Para evitar que o fato viesse a acontecer na vida real, preparei para a viagem uma boa cabaça de pescoço, com mais ou menos dois litros de capacidade, protegi-a com rodilhas cipó imbé e prendi-a à cinta e nunca me esqueci de mantê-la abastecida.
XIV

Aquele dia amanheceu claro, fazendo uma bela manhã, mas prometendo muito calor para a volta do dia. Era Domingo e eu havia firmado propósito de não viajar nesse dia da semana, reservando-o para orações e para explorar os campos próximos de onde eu estivesse, para conhecer melhor a natureza, colher frutas silvestres e fazer armadilhas para pegar alguma caça miúda, e reforçar minhas reservas de matula.
O acesso à rede era feito por uma corda, utilizando o sistema usado por todas as pessoas que adotam esse tipo de leito para dormir no mato. Quando arma a rede, amarra uma corda em galho forte e seguro ao lado dela. Essa corda alcança o chão e é por ela que a gente desce e sobe para a rede. Quando sobe, recolhe a corda para dificultar a subida de outra pessoa.
Pois bem, naquele dia amanheci, não sei porque, com vontade de cantar, de rir, de pular. Amanheci feliz. Não usei a corda para descer, mas soltei-a, par ser usada na subida. Peguei um jatobá bonito e grande num galho próximo à rede, joguei ele no chão e desci pelo tronco. Peguei a fruta e fui comê-la na beira d’água, tendo, antes, lavado o rosto. Foi o meu dejejum.
Saí para explorar o campo e fazer algumas armadilhas para caças. Fiz somente três armadilhas. Vaguei por algum tempo, o necessário par rezar dois terço e voltei conferindo as armadilhas. Numa delas, um mundéu, feito de uma pedra pesada, havia um coelho já morto. Olhei o cadáver do pequeno animal, com grandes orelhas, e tive pena. Era um bichinho tão bonito. Fiquei pensando se teria sido justo sacrificar-lhe a vida para matar-me a fome. Isso tirou todo o meu bom humor, por alguns minutos. Levei o animal para a beira d’água, tirei o couro e o assei inteiro, colocando o churrasco na lata de matula.
Andei um pouco mais e com o estilingue derrubei uns cocos de buriti que eram muito “gordos” e saborosos. Foi minha sobremesa do almoço naquele dia.

XV

Nesse dia de falha, fui alcançado por um grupo de viandantes que, com0 eu, viajava a pé, salvo uma senhora de meia idade que vinha montada em um jumento. Em um jumento de carga, traziam, roupas, redes, duas panelas, uma cabaça d’água e mantimentos. Ao contrario de mim, que não tinha um destino definido, que procurava apenas um lugar onde pudesse viver em paz e que oferecesse alguma perspectiva de futuro, que possivelmente fosse Santana, mas isso não era definitivo, aqueles que me alcançaram tinham um destino certo: vinham para Santana.
O grupo acampou ali na vereda, compartilhando comigo o conforto oferecido pelo pé de jatobá, abrigando-nos contra os rigores do sereno e do sol quente, com a vantagem adicional de já ter no local uma fogueira.
Depois de dez dias viajando sozinho, sem ter com quem conversar, afora aquelas conversas rápidas, quando indagava dos moradores ao longo do caminho sobre o roteiro a seguir, os lugares melhores para pousada, as distâncias, já estava sentindo o peso e os efeitos da solidão. Por isso, ter naquela noite cinco pessoas para conversar em torno da fogueira, era algo maravilhoso, ainda mais que esses serões iam se estender por dias e dias. Era o fim da minha solidão e de meus medos de assombração.
Naquela primeira noite, conversa vai, conversa vem, o chefe do grupo, um senhor por nome Cazuza, homem de uns quarenta anos de idade, de fala macia e prosa agradável e que gostava de contar casos de caçada e de pescaria, me contou que já tinha uns parentes morando em Santana; que tinha vindo com eles e voltara para buscar aquela senhora, a Dona Jandira, uma mulher que apesar dos seus cinqüenta anos, guardava os traços de um junventude cheia de beleza. Um Senhora tímida e recatada, como se espera seja o comportamento de uma viúva respeitosa. Falava pouco e não se intrometia nas conversas dos outros, me confidenciou baixinho o Seu Cazuza. Com a viúva, sua três filhas ali presentes, Maria, Jandira e Marli, e levar todos até aquela cidade goiana; que a Dona Jandira era mãe do chefe daquela família que ficara morando em Santana, e o encarregara de buscá-la em Santo Antônio do Balsas e que ia encontrá-los em Descoberto, um povoado que ficava a umas vinte e poucas léguas antes de Santana; que na sua viagem anterior, tinha ficado quase um ano em Santana pelo que sabia tratar-se de um lugar muito bom para morar e para trabalhar. Havia até terra de graça para quem quisesse plantar. Terras essas franqueadas pelos fundadores da cidade a todos que a ela chegassem para morar e com vontade e coragem de trabalhar. Os donos das terras que as cediam gratuitamente a quem as cultivasse, tinham uma admiração muito especial ao povo do Norte, principalmente aos maranhenses. Finalmente, disse-me que o nome do seu amigo que ficara morando em Santana era Egídio e que poderia contar com ele para me ajudar em alguma coisa nos primeiros dias em Santana, se eu precisasse, pois que ele era uma pessoa muito boa.
Dessas informações que me foram passadas por meu novo companheiro de viagem, duas, particularmente, me agradaram bastante: a primeira aquela que dava notícia das boas qualidades de Santana e a outra, era que eu já havia vencido, naqueles dez dias de caminhada, oitenta léguas, quase metade do caminho, para Santana, onde possivelmente eu ficaria.

XVI

Ponderou o caminhante, que já tinha experiência em viagem daquele tipo, que seria conveniente andar mais devagar, se não, era arriscado cansar, e a pressa resultar em demora. Além disso, havia o risco de ficar doente por causa do cansaço. Contou-me o caso de um conhecido seu, também da nossa região, que viajava para o Sul, sozinho, e com vinte dias já havia andado quase duzentas léguas. Em Descoberto, foi acometido de uma doença esquisita, ficando com as pernas e os braços duros como pau, não conseguindo nem mexer na rede. Durou duas semanas e morreu. O farmacêutico que tratou dele, disse que ele faleceu de estafa, explicando-me que essa tal de estafa era o mesmo que cansaço excessivo. No mais, falou-se de festas, pescarias, caçadas, tempo, vida dos outros, enfim, coisas triviais.
Como a carga do jumento estava leve, muito abaixo daquilo que ele poderia suportar em condições normais, foi-me franqueado agasalhar minha mala no cargueiro. Assim, dali para diante, andando escoteiro e mais lentamente, não tive mais nenhum problema de cansaço, acabando, inclusive, aquela vontade de gritar e de correr que me havia acometido várias vezes, quando estava viajando sozinho.

XVII

A viagem em grupo, além de ter sido muito menos cansativa e mais divertida, foi-me também muito útil do ponto de vista da experiência pessoal, portanto, incomparavelmente melhor do que aqueles dez dias de caminhada solitária, embora muito mais lenta e, consequentemente, mais demorada, mas nem por isso, me despertava desejo de voltar ao regime anterior. Nos dois domingos que se seguiram ao nosso encontro, que foram os que tivemos no restante do percurso, falhamos às margens de rios, e fizemos ótimas e proveitosas pescarias. Para acampar na beira de um Rio tivemos que bater pouso ao meio dia, de forma que por isso atrasamos um pouco a viagem, mas pressa naquele momento era que menos nos interessava, fazendo valer o velho ditado: “vida boa não quer pressa”.
Nos pousos, dividíamos as tarefas de recolher lenha, ascender a fogueira, recolher água, cozinhar e lavar vasilhas, de forma que o trabalho, assim repartido, se tornou ameno para todos.
Próximo à cidade de Peixe, encontramos o filho de dona Jandira, aquele que já morava em Santana e que ficara de ir ao encontro da mãe em Descoberto. Com ele foram também dois meninos, seus filhos, José e Eurípedes. Não nos encontrado em Descoberto, decidiram continuar, motivo pelo qual nosso encontro se deu perto do Peixe.

XVII

Engrossado o grupo com os três que foram daqui de Santana ao nosso encontro, a caminhada que já era boa virou festa. Em Descoberto, onde já moravam uns parentes de Seu Egídio, passamos três dias em regalo com direito a bebida, música, comida, dança, foguete, cantoria e muitos discursos. Os oradores se revezando na tribuna continuamente. Era só um descer, outro subia. Todo mundo, de mamando a caducando, fez discurso ali naquela festa que não tinha outro motivo se não a presença de seu Egídio, Dona Jandira e sua família. Nunca mais vi gente tão alegre e tão animada. Em uma segunda-feira, quando o dia acabava de clarear, reiniciamos nossa caminhada rumo a Santana. Seriam mais seis dias de viagem, portanto, mais seis noites de festa, uma vez que o grupo foi reforçado por mais doze pessoas, incluindo três músicos com seus respectivos instrumentos musicais: rabeca, viola e pífaro. A percussão: pandeiro, zabumba e triângulo, que todo mundo tocava um pouco, não tinha dono certo. Era da comunidade.
Cada pouso era uma festa e, se tivesse morador ali por perto, a família dele também caía no samba e, aí, varava a noite.

XIX

Na quarta-feira daquela mesma semana, chegamos a Amaro Leite. Não era hora de pouso, ainda estava muito cedo, mas, assim mesmo, o chefe do grupo, agora o Seu Egídio, que por razões óbvias, desde Peixe havia assumido a liderança, decidiu pelo pernoite ali nos arredores do povoado. Armamos nosso acampamento na beira do Rio do Ouro e as mulheres aproveitaram a tarde de folga para colher um pouco de açafrão, que havia muito no lugar e era nativo. Ali, em amaro Leite, a festança foi de arrepiar. O povoado inteiro compareceu ao acampamento e o “rela-bucho” foi até alta madrugada.

XX

De amaro Leite a Santana eram doze léguas, de modos que se viajássemos a uma média de quatro léguas por dia, chegaríamos sábado à tarde. Assim, com vistas a cumprir essa meta, seu Egídio exigiu um pouco mais do grupo, iniciando a jornada mais cedo, caminhando até a boca da noite. Um dos meninos do chefe, o José, antecipou o grupo, seguindo a cavalo.
A viagem teve um bom rendimento, de formas que sexta-feira batemos pouso na beira do Ribeirão Macacos, a duas léguas do destino final. Nessa noite, eu dormi pouco, pensando na chegada. Como seria essa cidade, o que me esperava, se eu ficaria nela ou se seguia em frente. Depois de horas revirando na rede, decidi esquecer o assunto e deixar para pensar nele depois que chegasse, conhecesse o lugar e as condições de trabalho e de estudo que ele me pudesse oferecer. Quando levantei, no dia seguinte, naquela hora do lusco-fusco, quando já não é noite e ainda não é dia, e o céu começava avermelhar para as bandas do Nascente, fui até o Riacho e dei um mergulho na água fria. Quando voltei ao acampamento, já estavam todos terminando o dejejum - consistente em Café e beju de tapioca -, porquanto atrasei uns dois minutos no banho. Tomei meu café em pé mesmo, e picamos a mula. A meta era almoçar na casa de Seu Egídio.
Aqui, na chegada, a travessia do Corgo Machambombo se fazia por vau. Um pouco abaixo do vau, havia uma bela cachoeira, onde todos nós tomamos banho, no dizer de Seu Egídio, nosso batismo para entrar na cidade. Antes de o progresso poluir o Machambombo, voltei muitas vezes àquela cachoeira, não sei se por saudosismo ou somente para apreciar o espetáculo das águas caindo nas pedras, dançando e cantando a doce música da natureza.
Seu Egídio morava na Rua dos Maranhenses, do lado norte da cidade, que assim se chamava porque ali só tinha gente do Estado do Maranhão. Quando embocamos na rua, seu Egídio fez explodir um foguete da caixa que havia comprado em Amaro Leite especialmente para esse momento. Foi a conta. A rua branquejou de fumaça e os pipocos emendaram uns nos outros. Nunca antes eu havia visto tanto foguete e foi aquilo uma coisa muito bela. Arrepiei-me todo e me deu uma vontade enorme de chorar de alegria, ante o calor daquela recepção que eu senti como se fosse para mim, embora soubesse que era para seu Egídio, sua mãe e demais parentes seus. Para completar, nossos músicos, aqueles que nos acompanharam desde Descoberto, tocaram uma música que nada tinha a ver com o momento, mas tendo sido composta por um maranhense, veio ao encontro de minha emoção, então, não agüentei. Desabei de vez, caindo em pranto. Até hoje, quando ouço Luar do Sertão, me lembro daquele dia e me vem uma vontade doida de chorar.

XXI

Seu Egídio me hospedou em sua casa e me aconselhou tirar a primeira semana somente para descansar da longa caminhada e escrever uma carta para os parentes em Santo Antônio do Balsas, contando a aventura da viagem, conselho que aceitei e observei integralmente.

XXII

Passada a primeira semana, tirada para descanso, chegou o momento de pôr mãos à obra, gastar o solado da chinela a procura de trabalho. Saí Segunda bem cedo para visitar as construções, que eram muitas, eu já havia visto algumas no correr da semana por ocasião de alguns passeios que fizera para espairecer. Foi fácil, conseguir trabalho. Na primeira tentativa já fiquei empregado. Quer dizer, não era exatamente um emprego, porque o serviço era por dia, não havia vínculo empregatício, mas o jornal era bom, aliás, me pareceu ótimo, para um servente de pedreiro sem prática na profissão. O ganho estava muito acima dos padrões da minha terra, mais do dobro do que se via por lá. A colocação me satisfazia plenamente, porquanto eu não tinha grandes pretensões naquele momento. Meu plano era preparar terreno para aprender uma profissão melhor, que me desse mais oportunidade de ganhar dinheiro e de me inserir na sociedade local. Esse era meu sonho.
Pensando assim, foi que trabalhei duro para que os pedreiros e os donos de construções reconhecessem meu esforço e minhas qualidades. Rapidamente ganhei o nome de o melhor servente do lugar, e todos queriam meus serviços.
Com dois meses na cidade, o dono de uma sapataria, vendo em mim uma pessoa esforçada, que vivia exclusivamente para o trabalho, longe das farras e da bebida, convidou-me para trabalhar em sua oficina como aprendiz de sapateiro. Com uma semana de aprendizado, comecei a fazer chinelas sozinho, sem precisar de ser instruído pelo meu mestre. Com menos de um ano eu, modéstia à parte, me tornara o melhor sapateiro da cidade, numa época de grandes profissionais dessa arte.
O dono da oficina, José Spindola, era um homem rico, dono de vários empreendimentos. Segundo crônica publicada por Marcope no Jornal Tribuna do Norte, aquele senhor foi, com justiça, o maior empreendedor da cidade, chegando a ter simultaneamente indústria madeireira; indústria ceramista; bar e sorveteria; cinema; loja de tecidos, calçados e chapéus; e fazenda com intensas atividades agrícolas e pecuárias. Como político, foi duas vezes prefeito do Município.

XXIII

Então, a “arte de sapateiro” era ótima profissão do ponto de vista da aceitação desse profissional na sociedade. Poder-se-ia dizer que o artesão sapateiro desfrutava de “status” que lhe garantia tranqüila inserção no meio social, garantindo-lhe boa convivência com as família de maior evidência, Tanto no que tange ao poder político, quanto ao que toca ao montante de seus cabedais. Assim, de trabalhador braçal, condição que aqui cheguei, a sapateiro profissional, a diferença era muito grande, o que me fazia sentir, de certo modo, orgulhoso de meu progresso pessoal, entretanto eu queria mais. Muito mais. Porém esse meu querer mais não significava busca de riqueza, mas busca de posição social. O dinheiro que eu ganhava era suficiente para meu modo de vida e eu nunca tive ambição de acumular fortuna.

XXIV

A posição relativamente confortável que cheguei me dava direito a pensar em casamento. Resolvido a encontrar alguém com quem pudesse compartilhar o resto de meus dias, passei a auscultar o comportamento e os modos das moças das família mais importantes de Santana. Depois de algum tempo e muitas tentativas sem sucesso, apaixonei-me por uma jovem senhorita pertencente ã família dos fundadores e comandantes políticos da cidade, com quem me casei depois de poucos meses de namoro e noivado, e que, tenho certeza, vai me tolerar até o última dia de minha vida.

XXV

Casado, senti-me no dever, não somente de consolidar minha posição na sociedade, mas sobretudo melhorá-la, subindo alguns degraus na complicada escala do “poder” e do “ter”. Para consecução desse objetivo, adquiri a oficina onde trabalhava, passando, com isso, de empregado a proprietário empregador.

XXVI

Agora, leitor, se você me der licença, a gente muda por algum tempo o rumo dessa prosa. Acho que chega, por agora, de falar de mim mesmo. Registremos, pois, alguns acontecimentos daqui de Santana que, por certo, haverão de ter alguma utilidade para quem se der ao trabalho de estudar a história de nossa terra. Não gosto de falar de coisas tristes e dolorosas, mas penso que, neste caso, é meu dever deixar registrado um andaço de febre braba que deu por estas bandas, que diziam ser a tal febre amarela, porque o doente ficava da cor de açafrão. Uma curiosidade que deu muito que pensar no caso dessa febre, foi que adoeciam mais pessoas que moravam na roça e os moradores das beiras de corgo, nas pontas de ruas. Outros também contraiam a doença, mas em proporção muito menor. Parecia que aquela febre tinha alguma coisa a ver com a água, porque quem morava longe d’água, onde, também, não existisse “privada” de buraco no fundo do quintal, raramente adoecia.
Aquele foi um tempo difícil e triste para Santana. Não passava um dia sem que morresse pelo menos uma pessoa. Tinha dia que morriam três,.. Quatro. Para atender à população que já não tinha recursos para cuidar dos doentes e dos mortos, foi preciso a prefeitura contratar coveiros e carpinteiros em caráter de emergência e adquirir estoques de tábuas e paramentos para caixões. Para cuidar dos doentes, José Fernandes de Carvalho, Tizeco, fez várias viagens ao sul em busca de reforçar os estoques de sua farmácia, mas ainda assim o povo continuava morrendo. A doença somente foi controlada quando o mesmo Tizeco conseguiu com o Governo do Estado recursos em dinheiro e vacinas para imunizar toda a população Santanense. Das pessoas que contraíram a febre, poucas escaparam da morte. Esss poucos se safaram graças aos cuidados do Tizeco, que passava dia e noite levando seu cuidados de casa em casa, andando a pé, de carroça ou a cavalo, procurando ajudar a todos os doentes, nada cobrando pelos seus serviços e, na maioria das vezes, não cobrando cobrava nem pelos remédios fornecidos. Minha mulher foi uma das poucas pessoas a se curarem. Abaixo de Deus, devemos sua vida ao Tizeco.

XXVII


Por modesta que seja, toda comunidade tem os seus líderes. São pessoas que se destacam das demais no meio em que vivem. Chefes políticos, produtores rurais, empresários do comércio e da indústria, dirigentes classistas. As boas ou más qualidades desses líderes, sua fortuna e cultura estão sempre na dependência da evolução de cada comunidade no que tange ao tempo e ao lugar, devendo-se anotar que o conjunto desses líderes e suas família representa a elite social. Por essas razões que as elites das pequenas cidades se diferem tanto das elites metropolitanas. Essas diferenças de riquezas, costumes e cultura, entretanto, não autorizam o entendimento de que nessas comunidades não exista elite social. Por isso, digo com orgulho, de peito aberto e fronte erguida, que embora tenha aportado Santana em condições altamente desfavoráveis no que se refere a minhas condições pessoais de fugitivo da pobreza; viandante sem bagagem; autêntico deserdado da fortuna, ascendi por mérito próprio, guindado exclusivamente por minhas qualidades pessoas, à invejável condição de membro ativo e importante da elite social desta terra que, orgulhosamente, adotei por minha.

XXVIII

Eu já disse que queria falar de outras coisas, esquecendo-me de mim mesmo por um tempo, mas não tem jeito. Volta e meia estou me metendo na história. Agora, mesmo que tenha que fazer cara feia, antes de voltar a falar de mim mesmo, vou contar pelo menos um caso dos muitos interessantes ocorridos aqui por essas bandas de Santana. Começo por um incrível mistério de um jumento que caiu do céu, justamente dentro da horta de Seu Dé.
NO fim da Ditadura Vargas, primeira eleição para prefeito, depois de anos de jejum eleitoral, fui convidado pelos maiorais da cidade para concorrer, ao cargo, eleições diretas, com o apoio da família fundadora da cidade. Recusei ao honroso convite, por entender que não tenho jeito para política. Então candidatou-se o Genro do Coronel Gaspar, Aristides Ribeiro de Freitas que era tio de minha mulher. Pela oposição, apresentou-se como candidato o jovem comerciante, baiano de nascimento mas que aqui chegou vindo do Mato Grosso, onde fizera fortuna em garimpos. Casado com uma jovem de importante família aqui radicada, como ele oriunda do Nordeste. Seu Dé, como era conhecido, era excelente pessoa, penso até que seu único defeito, do ponto de vista meramente eleitoral, era pertencer a partido de oposição. E é bom que se frise que adversário político naquele tempo era, a bem dizer, inimigo pessoal.
Seu Dé cultivava uma horta em seu quintal, onde plantava alface, tomate, couve, jiló, e tudo mais que se planta em hortas por aqui, ordinariamente, para o consumo da família, portanto sem fins comerciais. Alguns faziam e fazem isso por puro diletantismo. Seu Dé orgulhava-se de suas plantações que eram muito bem cuidadas e enchiam os olhos de quem quer que as visse. Por isso, estava sempre convidando os amigos para vê-las.
Numa segunda-feira, decepção! Cedo, quando seu Dé foi irrigar suas plantas, como fazia todos os dias, não havia ali um pé de nada. Onde fora a horta, havia um jumento, cuja volumosa barriga estava a indicar o fim das belas plantações do candidato a prefeito.
Seu Dé ficou mais curioso do que indignado com o fato. Não conseguia ele entender como aquele jumento havia entrado em sua horta, porquanto ela era inteiramente fechada de muro, tendo como único acesso a porta da própria casa, de modos que quem quisesse entrar ali haveria, obrigatoriamente, de passar por dentro de casa. E, tendo o jumento entrado à noite, a casa estava fechada, além disso, os muros estavam intactos, sem nenhum sinal de ter passado por eles qualquer animal.
Pular por cima do muro ele não havia pulado. Era impossível em face da altura. Um mistério!... Teria o animal caído do céu? Para Seu Dé, aquilo só poderia ser castigo de Deus, por ele estar fazendo oposição ao Coronel Aristides.
Regulando sete e meia da manhã, quando eu passava em frente à loja de Seu Dé, indo para o trabalho, como fazia diariamente, ele me chamou.
- Ô Seu Luiz.
- Pois não, Seu Dé.
- Se o Senhor não estiver com muita pressa, quero mostrar-lhe uma coisa e pedir sua opinião sobre um mistério que está esquentando-me a cabeça.
Pensei que fosse alguma coisa relacionada à loja.
- Para o Senhor eu sempre tenho tempo, Seu Dé. Estou às suas ordens.
- Venha cá...
Dizendo isso, entrou pela porta de sua residência a dentro, que era ligada à casa comercial, encaminhando-se para o fundo da casa.
- Seu Luiz, o Senhor se lembra da minha horta, que ainda anteontem eu lhe mostrei?
- Lembro muito bem. Ela estava muito bonita e o Senhor até me ofereceu umas folhas de couve e uns pé de alface que eu fiquei de pegar hoje, para o almoço. Quero comê-las ainda bem fresquinhas.
- Pois acho que o senhor, por hoje, não vai comer alface e nem couve. A horta acabou. Sumiu.
- Acabou como? Ainda ontem estive a admirá-la. Estava viçosa e muito bonita.
De fato, na tarde anterior, estivera observando as plantações. Quando descia para tomar uma cerveja no Bar Vitória e passei em frente ao muro que separa a horta da rua, lembrei-me das “hortalices” que seu Dé havia me dado e que na manhã seguinte eu deveria passar ali para pegá-las”, então ergui-me nas pontas dos pé e observei por cima do muro.
- Seu Luiz, será que é castigo de Deus ou será que foi o capeta que pôs esse jegue aqui dentro? O Senhor veja. Não tem nenhum lugar por onde ele possa ter entrado. Mas ele está aí dentro. Isso é um fato inegável. Só pode ter caído do céu.

XXIX

Não encontrando uma explicação aceitável para o fato, não posso negar que eu também, naquele momento, fiquei bastante intrigado com essa história do jumento ir parar na horta do Seu Dé. Acabei concordando com ele. O Jegue veio de cima. Assim, poderia muito bem ser mesmo um castigo.
Mais tarde, no momento oportuno, você vai conhecer o deslinde deste mistério.

XXX

Conheci minha mulher na fazenda de seu pai, na Tapera, a dois quilômetros da cidade. Se alguém perguntar a qualquer morador da Tapera qual a distância de lá à cidade, com certeza vai ouvir esta resposta: daqui na rua tem meia legüinha pequena. Os moradores da Tapera, inclusive meu sogro, Seu Afonso, escondem por trás de uma aparência cabocla, razoáveis conhecimentos de “Geografia e História, principalmente Seu Afonso e Dito de Jesus, que são capazes de discorrer com perfeita desenvoltura sobre a História e a Geografia dos principais países da Europa.
Em outra área, a musical, o campeão é Zequinha. Não que ele saiba a História da música ou que seja versado em música erudita. Nada disso. Ele é bom mesmo é para tocar música brasileira na flauta e na gaita de boca. E não sabe ler partitura. Toca de ouvido.
Entre um e outro trago de cachaça, faz renascer por sua flauta as mais belas páginas do cancioneiro poupular de antigamente. Quem gostar de boa música brasileira pode ouvir “Saudade de Matão”, “Saudade de Ouro Preto” ou “Branca”” e, ainda, deliciar-se com um dos muitos casos do extraordinário músico. Protagonista dos “causos” que conta, e talvez por isso mesmo, serem fatos ocorridos com ele próprio, é que os conta com a graça e a beleza que somente ele lhes pode dar.
Não tenho como reproduzir aqui sua encenação, as sutilezas da entonação de voz, os trejeitos, tudo isso sendo mais expressivo que as próprias histórias, constitui a alma dos seus “causos”.
Zequinha, aos sessenta anos, orgulha-se de ser virgem, mas sobre essa sua donzelice, conta ele que há mais ou menos uns cinco anos, quando beirava aí os cinqüenta e cinco, resolveu pôr fim a seu estado de virgindade. Então, comprou roupa nova, perfumou-se com uma essência de gosto duvidoso e se mandou para a rua. Foi para o “Fôia”, a rua das mulher livres. Ali, a primeira que apareceu ele convidou para tomar uma cerveja. Tomou uma, tomou duas e nada de coragem para falar com a mulher o que ele queria. Procurando coragem, vai entornando cerveja, quando já haviam, os dois, ele e a mulher, tomado umas dez, e ele já tava muito mais pra lá do que pra cá, sem ter tido coragem de dizer para que estava ali, saíram os dois e se sentaram na beirada da calçada e ficaram ali na maior safadeza. Um soldado, vendo os dois bêbados, dando vexame no meio da rua, chamou-lhes a atenção.
- Cês dois aí. Ceis larga de pouca vergonha, se não vai os dois em cana.
Zequinha não entendendo a linguagem do policial, perguntou rispidamente:
- Cana? Que Cana? Quê que é isso?
- Cana, cadeia. Seu besta. Sabe quê que é isso?
- Cê sabe com quem tá falando?
- Nem quero saber.
- Eu sou o Zequinha. Sou neto do Coronel Gaspar, primo do Doutor Cristovam.
- Cê é primo do Dr. Cristovam, coisa nenhuma seu bêbado...
Nessa altura o policial pegou o pobre do Zequinha pelo fundo da calça, balançou ele pra lá e pra cá como se fosse um saco de arroz e jogou no meio da rua. Ele atolou a cara na poeira, encheu a boca de terra e ainda rasgou a calça nova.
Levantou e, perna pra que te quero. Continuou virgem.
Devo esclarecer que realmente o Zequinha é primo do Dr. Cristovam, que foi promotor de Justiça na cidade e é uma pessoa da mais alta respeitabilidade, admirado por toda a população uruaçuense tanto pela sua conduta moral quanto por sua cultura.

Em outra oportunidade, foi o próprio Zequinha que me contou que o Governo não queria conceder-lhe pensão pela morte do pai, que era funcionário público. Então ele, Zequinha, orientado por seu primo José Sobrinho, compareceu pessoalmente perante as autoridades que cuidavam da concessão de aposentadoria e pensão e, ali, diante daquelas autoridades se fez passar por mentecapto, conseguindo, com isso a sua almejada pensão, que, diga-se, a bem da verdade, é uma soma considerável, porquanto seu pai era funcionário graduado da Secretaria da Fazenda.

XXXI

Eu que sempre fui um homem pacífico, amigo da concórdia, certa vez fui obrigado a ir para a trincheira, de carabina em punho, em defesa das instituições democráticas.
Estava eu tranqüilamente refestelado em minha cadeira preguiçosa, debaixo do pé de caju que tenho no quintal de casa, um caju de qualidade, cuja “semente” eu trouxe do Maranhão, e do qual já dei semente para muita gente daqui de Uruaçu. É uma fruta bonita, saborosa e não deixa ranço nem travo na garganta. Todo mundo que a experimenta, leva a castanha para plantar. Já tem para mais de uma centena de pés dessa variedade esparramados pelos quintais da cidade, e os que entram em produção são exibidos com orgulho pelos seus donos.
Mas como vinha dizendo, eu estava tranqüilamente, sem camisa, refestelado em minha cadeira preguiçosa debaixo do pé de caju (descansando depois de um dia de intenso trabalho no consultório, com um caso muito complicado de um paciente de colega que lhe havia quebrado um dente na tentativa de extraí-lo. Como era um dente de extração difícil, tirou-o pelas metades, deixando a raiz e, para piorar a situação, por erro de procedimento do colega, o paciente contraiu uma grave infecção , vindo o caso parar em minhas mãos. Felizmente consegui resolver o problema o que foi muito bom para o colega, para seu cliente e para o meu nome profissional, uma vez que se tratava de pessoa importante na sociedade local e o caso teve grande repercussão), quando apareceu o Júlio Carroceiro, trazendo um recado do Tizeco, para eu ir naquela horinha à cassa dele, a fim de tratar de assunto muito importante e muito urgente, de interesse de todo o povo da cidade. Vesti a camisa e fui imediatamente atender a convocação do velho cacique da família dos manda-chuvas da cidade. Para chegar mais rapidamente, fui de bicicleta, o meio de transporte utilizado pela maioria da população para deslocamentos dentro da cidade. Para viagens longas o transporte mais usado era o cavalo.
Quando cheguei à casa do Tizeco, já lá estavam uns cinqüenta homens, entre eles, o Delegado de Polícia, o Promotor de Justiça e vereadores da situação.
O dono da casa, convidou a todos para uma sala grande e como não havia cadeira para tanta gente, quase todos sentaram-se no chão assoalhado de tábuas corridas. Eu fiquei em pé, encostado à parede.
Tizeco dirigiu-se a uma mesa forrada com toalha de linho branca, onde estavam três cadeiras. Ele sentou-se na do meio e convidou o Promotor e o delegado para ocuparem as outras duas.
Instalada a mesa, assim, como toda a simplicidade, sem nenhuma formalidade ele iniciou a sua fala.
Boa noite, senhores. Trata-se de uma coisa muito urgente, então vamos diretamente ao assunto. Eu chamei os senhores aqui para ...

XXXII

Das grandes amizades que tenho o prazer de cultivar, uma é a do Compadre Nelson. Curtido no sol dos garimpos de diamante do Mato Grosso, Compadre Nelson, não tendo conseguido o sonhado bambúrrio, cansado de arriscar a vida envergando pesados escafandros nas profundezas dos rios, trocou os perigos do garimpo pelo sossego de uma cidade pacata, e a dureza do trabalho no fundo dos rios pelo placidez de um balcão de loja. Sua inteligência, sua boa educação no trato com as pessoas e, principalmente, seu faro comercial, acabou por lhe proporcionar aqui em Santana a merecida independência econômica que sonhou e não alcançou nas lavras de diamante.
Do garimpo, trouxe a alegria de viver, o gosto pela farra, pelas brincadeiras, sem contudo se descurar das suas obrigações. Isso lhe dá uma enorme facilidade para angariar amizades. Boas amizades. Dentre seus amigos, havia dois que eram especiais, porque comungavam com ele o mesmo gosto pelas brincadeiras e pelas festas. Eram eles Dr. Nenzico e João Vitorino.
Pois bem, foi esse trio, Compadre Nelson, Dr. Nenzico e João Vitorino que, depois de tomarem umas e outras, vinham subindo a Avenida Tocantins, encontrando no meio da Avenida um récua de Jumento, à altura da Casa do Seu Dé. Então, tiveram a idéia de colocar um dos animais dentro da horta. Escolheram um que não era muito pesado e, os três o colocaram dentro, passando-o por cima do muro, com o cuidado de não deixar qualquer sinal, para que o fato tomasse ares de mistério.
Seu Dé não teve a minha sorte. Até hoje não sabe o mistério do Jumento que comeu sua horta.

XXXIII

Bem, disse Tizeco. Chamamos os senhores aqui para comunicar um fato muito grave que está ocorrendo aqui em nossa cidade e que, pelo que entendo, carece de uma reação urgente de nossa parte, porque o caso interessa a todos nós.
Como vocês todos sabem, o Feliciano foi ao Rio de Janeiro conversar com autoridades federais, inclusive Ministros e o próprio Presidente Dr. Getúlio, à procura de soluções para problemas de nossa cidade, e, por razões que não nos cabe analisar neste momento, está demorando mais tempo do que o permitido pela lei. E se ele excedeu o prazo legal, ficando fora da cidade mais tempo do que o que admite e lei, deve ter um motivo justo, mas isso é com ele. O que temos de ver, o que temos de resolver é o problema que esta acontecendo aqui na Prefeitura por causa dessa demora.

XXXIV
Por causa de uns acontecimentos políticos ocorridos na cidade de Peixe, o Governo mandou para lá um Batalhão da Polícia Militar. Não sei porque diabos essa polícia parou em Uruaçu, demorando aqui vários dias. Polícia daquele tempo se considerava dona do mundo. Dispunha das pessoas como se fossem objetos de sua propriedade. Batia, prendia, matava e ficava tudo por isso mesmo. Por qualquer dê cá uma palha, sentava fogo nos “paisanos” e tudo isso com a conivência do Governo que muitas vezes, diante das maiores atrocidades, condecorava e promovia matadores ferozes “por ato de bravura”.
Aqui em Uruaçu, os policiais, arranchados na Delegacia, deram asas a seus sonhos de “otoridades”, e vazão a sua sanha, principalmente os praças de pré, com apoio dos comandantes.
Paulo Baiano morava na Pedra Preta, e quase todos os dias vinha à cidade porque aqui moravam aqui todos os seus parentes e a maioria de seus amigos e conterrâneos vindos com ele da Bahia.
Pois bem, ia Paulo Baiano subindo a rua, montando seu burrinho magro, dirigindo-se à casa de seu irmão Tonin Ramos. Quando passava perto do “quartel”, um soldado negro, mal encarado o chamou: ô caipira, pára aí.
- Pois não. Suas orde...
- Vai ali na bica e traz este pote cheio d’água pra mim. Um pé lá e outro cá, se não cai na borracha. Eu vou cocê, procê num inventá trêta.
Na biquinha, que era ali perto do Correio, na confluência da Rua Goiás com a Rua Isabel Fernandes, o Paulo estava enchendo o pote e o soldado aí do lado, agachado, “enchendo o saco” dele.

- Quem foi que furô esse zói seu? Foi a Puliça que te deu uma taca e furô seu zói e ocê apanhô até cagá?
Paulo calado estava, calado ficou, mas por dentro, se queimando de raiva. O soldado continuava agachado, rotando valentia e amolando o Paulo.
Paulo acabou de encher o pote, levantando-o caladinho, como se fosse colocá-lo na cabeça, mas ao invés disso desceu o fundo da vasilha na cabeça do praça que a cabeça dele entrando pote a dentro, ficando ele sem enxergar nada,. Assustado, danou a gritar: traz meu fuzil. Esse disgraçado me matô. Eu tô cego, me acode, gente. E o Paulo, perna pra que te quero. Foi de um fôlego até à Pedra Preta. Brabo que nem cupim de vereda, mas sabia que sozinho e desarmado não poderia enfrentar um batalhão inteiro.

XXXV

Voltando ao caso da Prefeitura, você se lembra que o Tizeco vinha dizendo que era preciso resolver um caso que estava acontecendo na Prefeitura por causa da demora do prefeito no Rio de Janeiro.
Continuando, disse Tizeco: conforme me esclareceu o Dr. Cristovam, que é Promotor de Justiça e membro de nossa família, a lei não permite que o Prefeito se ausente do Município por mais de quinze dias sem autorização da Câmara de Vereadores, sob pena de perda do mandato. Esclareço melhor. Acontece que o Feliciano excedeu esse prazo. Ontem fez dezessete dias que ele saiu da sede do Município e o Vereador Bráulio Beltrão, que é o atual Presidente da Câmara e, portanto, substituto eventual do Prefeito, assumiu a Prefeitura no dia da saída do titular e, agora, tendo ele passado do prazo para voltar, o Bráulio, orientado pelo Dr. Maciel que é inimigo declarado da nossa família e instigado por nossos adversários políticos, como Prefeito Interino, baixou um ato declarando a perda do mandato pelo Feliciano, assumindo ele próprio a Prefeitura até que o Tribunal autorize nova eleição.
Todos nós conhecemos o juiz e sabemos que ele é contra nós, por isso não vai adiantar nada a gente entrar com ação judicial, conforme me adiantou o Dr. Cristovam.
Outra coisa. Passei um telegrama para o Feliciano no rio de Janeiro e ele fretou um avião lá e chegou em Goiânia agora de tarde. Seu plano era Ter chegado aqui hoje, mas não deu tempo. Ele chegou em Goiânia muito tarde, já aram quase seis horas da tarde. Ele vai decolar de goiânia amanhã às sete horas, de formas que às oito em ponto ele estará descendo no campo daqui. A idéia dele é que somente pela força vamos poder resolver este problema. Neste momento, segundo o telegrama que me passou agora à boca da noite, ele está falando com o Dr. Pedro, pedindo autorização para agir por meio da força. Quando ele passou o telegrama ele já tinha telefonado do Grande Hotel para o Palácio, o Dr. Pedro Já tinha dado a autorização verbal, mas foi ao Palácio para pegar uma ordem escrita.
Diante disso, propomos que todos os homens de bem desta cidade, que tenham qualquer arma de fogo, reunam amanhã de madrugadinha, no mais tardar até as cinco horas, na casa do Zezé, que é, a bem dizer, ao lado da Prefeitura, para garantir a posse do Feliciano na hora que ele chegar à Prefeitura que deve ser, mais ou menos às às oito horas e dez minutos, pois ele virá do campo de aviação direto para o Paço Municipal, no caminhão da Serraria do Zezé. Nessa hora já é para todos estarem a postos com suas armas untadas e carregadas. Nós vamos garantir nosso direito e manter nossa honra no coice da carabina.
Quem estiver de acordo, levanta o braço.
Todos concordaram.

XXXVI

Quando os galos amiudavam, anunciando que a barra do dia começava a amarelar para as bandas do Rio Maranhão, cento e tantos homens armados se espalhavam pelas imediações do Prédio da Prefeitura: em cima dos telhados, nos galhos das árvores, atrás dos muros, prontos para abrir fogo no momento que recebessem o sinal combinado com Tizeco, que assumiu o comando da “operação limpar gavetas”.
Bráulio, percebendo que a coisa estava ficando preta, foi tratando de pegar sua pasta, botar o paletó no ombro e sair de fininho. Tizeco insistiu com ele para esperar o Feliciano e transmitir-lhe o cargo, mas ele, pálido, suando e tremendo, não quis conversa com ninguém. Foi pedir guarida na casa do Dr. Maciel.

XXXVII
Um dia chegou aqui uma loja de tecidos. Melhor seria dizer que se instalou aqui uma casa de negócios especializada em tecidos. Era uma casa sem muita importância, dessas que abrem e fecham, somem, desaparecem sem deixar saudades. Abriu suas portas numa casa velha ali na esquina da Avenida Tocantins com a Rua Leopoldo de bulhões, abarrotando suas prateleiras de tecidos baratos e de qualidade duvidosa. A Voz de Uruaçu que era o serviço de Alto falante do bar Vitória, e se rivalizava com a Voz do Comércio, que era do Bar Ramos, anunciava: Lojas Goianas, são novas e já são bacanas. As mais belas estampas em fazendas das melhores fábricas do Rio e de São Paulo, você encontra nas Lojas Goianas”. O anúncio soava tão falso que parecia desbotar-se como as cores das chitas baratas do estabelecimento.

XXXVIII

Há pouco, falei da Voz de Uruaçu e da Voz do Comércio, que eram os serviços de alto-falantes da cidade. Esse meio de comunicação de massa foi um veículo muito utilizado nas décadas de 1940 e 1950 e foi de grande utilidade para o desenvolvimento cultural das pequenas comunidades brasileiras. Funcionava como uma espécie de rádio local e era de grande utilidade na difusão da cultura, principalmente na área da música.
No tempo em que a rádio-difusão atingiu seu ponto mais alto na comunicação de massa, levando notícia e cultura, contínua e instantaneamente a todos os pontos do planeta, possibilitando saber aqui em Uruaçu ou em qualquer lugar da terra, os fatos no momento do ocorrido, pelas ondas curtas de poderosas e potentes emissoras, normalmente com programação diárias para o Brasil, em Língua Portuguesa, Hélio Costa, que depois regressou ao Brasil, tornando-se aqui um importante político, ficou famoso como locutor da Voz da América, emissora dos Estados Unidos da América do Norte, que tinha transmissões dirigidas ao Brasil. As mais importantes nações do mundo mantinham esse tipo de serviço e as estações eram tão poderosas que eram ouvidas aqui com sinal tão bom, como se fosse rádio local. Aqui no Brasil, Os noticiários “Repórter Esso” e “O Globo no Ar” eram tão importantes como é atualmente o “Jornal Nacional” da Rede Globo de Televisão. Mas vamos deixar de lado esses “patrasmentes” das comunicações e vamos voltar ao nosso “causo” das Lojas Goianas.
Como você pode imaginar, a tal loja não resistiu por muito tempo à concorrência do comércio tradicional do lugar. Quebrou, virou quirera. Por quê? Simplesmente porque o comércio daqui tinha características das povoações sertanejas, onde a maior parte dos compradores são fazendeiros que vêm à cidade uma vez por ano, na época da safra. Compram tudo que precisa para o ano inteiro, enchem as bruacas e regressam às suas fazendas. Esses compradores costumam passar vários dias na cidade, via de regra, arranchados em casas preparadas especialmente para eles, cedidas por comerciantes. A aceitação por parte do freguês de arranchar em casa de determinado comerciante eqüivale a um pacto silencioso de freguesia. Esses fregueses, anos e anos, compram sempre do mesmo negociante. Há entre comprador e vendedor uma confiança recíproca, uma fidelidade que não se quebra facilmente. O comerciante, neste caso, é uma espécie de protetor do fazendeiro, que o aconselha em casos complexos e o auxilia nas solução de problemas junto a repartições públicas. Em compensação, além de fiel comprador, nas épocas de eleições são também eficientes cabos eleitorais. Esse costume é uma tradição muito forte, que não se muda de um dia para o outro. Assim, loja que venha de fora com programas arrumadinhos, preços fixos, balconistas engravatados e tudo mais que modernamente se faz para atrair a clientela, aqui no sertão não surte efeito positivo. Tem freguês que só compra se conseguir um abatimento. Esse negócio de não poder dar desconto no preço, aqui não funciona. Por tudo isso, adeus Lojas Goianas. Também uma loja que sequer tinha dono. Onde já se viu uma casa de negócio que a gente não vê o dono dela, ninguém sabe quem é ele. Uma casa que tem só gerente e um bando de mocinhas e mocinhos perfumados. Uma casa de comércio que não tem um saco de café; não tem um caixote de farinha, nem um saco de sal. Onde não se vê nem uma bola de fumo ou uma pilha de rapadura. Não tem arame, não tem prego, não tem ferradura. Para encurtar a conversa, naquela loja não tinha nem querosene. Cê besta Sô. Isso é lá casa de comércio que se apresenta. Tinha mesmo era que fechar e já fechou tarde.

XXXIX

Naquela loja só tinha que prestavam era os empregados e gerente, que a mercadoria... quá... O gerente era um jovem piauiense de boa cultura, de voz muito grave, fala mansa e prosa agradável que gostava de contar “causos”, e que conquistou rapidamente a simpatia e a amizade de toda a população local. Dono de ótima memória, recitava de cor histórias inteiras de trovadores nordestinos, e, muitas vezes, até acrescentava-lhes alguns detalhes por conta própria para torná-las mais engraçadas. Dos muitos “causos” que gostava contar, lembro-me de um em que o pai morava no Piauí e escrevia uma carta para o filho que havia se mudado para Minas Gerais. Na memória tenho apenas alguns fiapos dessa história que começa assim: Capão do Brejo, tanto de tanto de mil novecentos e tanto. Incelentissimo senhor João, meu filho, tocadô de violão muito bom, morador em Mina Geral. Por aqui não tem nuvidade. Só o marvado do fio do delegado que assassinou a porca da sua tia e bateu na égua da cumade Joana até matá. Não se sabe quem, mas foi com muita marvadeza que assassinaram o barrão piau de Cumpade Vicente que servia a Deus e a todo mundo da redondeza. No mais aqui tá tudo muito bom. Só sua mãe que andou meio perrengada, mas já morreu. O enterro foi uma beleza, teve muita pinga, toque de rebeca e até sanfona. O fechamento da cata era algo formidável, mas perdeu-se nos confins do tempo e da minha memória e o gerente das Lojas Goianas não quer mais contar esse caso, acha ele sem graça.
Os “causos” contados assim, por escritos, ainda mais pelas metades, sem os gestos, sem voz grave e cadenciada do contador, não tem nem um milésimo da graça que tem ouvi-los da boca do gerente das Lojas Goianas
XL

Desempregado, o gerente preparava suas malas para retornar ao Piauí. Procurei-o na pensão onde morava:
- Carlos, me disseram que você está de volta ao Piauí, na próxima semana?
- Esse jeito de falar em que se faz uma afirmação em tom de interrogação é próprio de nossa região. Você, que está lendo estas linhas deve Ter notado que temos uma linguagem própria, só nossa, daqui deste bom pedaço de Goiás.
- É Luiz. Estou mesmo me preparando par ir embora. Vou voltar para minha terra. A loja fechou e eu não tenho mais o que fazer por aqui e não tenho dinheiro para me manter sem trabalhar.
- Faz o seguinte: você vai morar lá em casa. Tenho um quarto sobrando, com uma boa cama. não tem outros móveis, só cama. Mas nisso dá-se um jeito. Por enquanto, à falta de um guarda-roupa, suas roupas ficam na mala e você pode morar lá até conseguir um trabalho que lhe dê renda para sobreviver com dignidade. Isso não vai lhe custar nada, além de nossa boa amizade.
- Para ser franco, Luiz, fico meio sem jeito, fico muito constrangido mesmo em aceitar essa sua oferta, mas como lá para as bandas de minha terra as coisas andam muito difíceis, vou aceitá-la com a esperança de que um dia possa retribuir sua generosidade.

XLI

Carlos Medeiros ficou morando aqui em casa por um bom tempo, tornando-se, para mim muito mais que um amigo. Um verdadeiro irmão. Hoje ele é meu compadre Carlos, padrinho de minha filha caçula. Tem sido um amigo fiel, mesmo nas horas mais difíceis, prestando-me importante assistência neste momento em que venho padecendo grave enfermidade. Essa lealdade, essa demonstração de carinho, tenho recebido tanto dele quando de seus irmãos, principalmente do Adovaldo.
Graças a sua boa cultura e a facilidade para se relacionar com as pessoas, conseguiu o cargo de Tabelião em Amaro Leite, mudando-se para aquela cidade, que, mais tarde, transformou-se em Mara Rosa, ali vivendo até hoje, gozando da amizade e da admiração de todo o povo do lugar, onde é um próspero comerciante, mas nem por isso esqueceu as velhas amizades daqui de Uruaçu.
XLII
Enquanto esteve aguardando trabalho em Uruaçu, Carlito costumava passar “na Farmácia do Boa”, longas horas batendo papo com o dono do estabelecimento, famoso por suas atitudes “donjuanescas” de galã de cinema. Boa ou Dr. Benedito Cleone de Freitas, era um jovem paparicado pelos manda-chuvas da cidade, somente pelo fato de ele ser doutor, chegando a ser indicado pelo PSD candidato a prefeito da cidade.
Nesse tempo, quando Carlito costumava matar o tempo batendo papo na farmácia, trabalhava por aqui um locutor da Voz de Uruaçu, o Jota Júnior, que mais tarde veio a ser repórter e narrador de futebol na Rádio Nacional do Rio, ao lado de celebridades do Rádio como Valdir Amaral, também de Uruaçu (e que por aqui tem um irmão, o Zé Dura, muito conhecido na cidade) e Jorge Kury, o melhor narrador de futebol do Brasil de então.
Estando Jota Júnior com esfriado, procurou a Farmácia do boa para tomar um injeção de cálcio, intravenosa. Aconteceu que naquele momento o Boa havia saído para ir ao correio e deixando o Carlito vigiando o estabelecimento.
- Cadê o boa, Carlito?
- Foi ao Correio.
- Eu queria tomar uma injeção na veia para ver se fico livre dessa gripe que está me incomodando muito.
- Eu aplico, Jota. Se você não sabia, fique sabendo agora que eu fui o melhor aplicador de injeção do Estado do Piauí.
- Quero não, Carlito. Tenho muito medo de injeção. Vou esperar o Boa.
- Não é homem não, cara? Tô dizendo que sou bom nisso.....
- Tá bem. Mas veja lá se não vai me matar...
- Jota tomou a injeção e ficou por ali batendo papo.
- Jota, você tem certeza que está se sentindo bem?
- Tou sim. Tou ótimo.
- Graças a Deus. Essa foi a segundo injeção que apliquei. A primeira, o cara morreu antes de eu tirar a agulha da veia dele.
Foi nada, não seu moço. O Jota Júnior foi amarelando e caiu que nem uma jaca madura. Ficou ali estirado no chão da farmácia. Carlito pegou ele pelos pé e quando o ia arrastando para colocar em uma cama num quarto que havia no fundo da farmácia, apareceu um freguês:
- O quê que aconteceu com o Jota Júnior? Morreu?
- Nada, não. É pinga. Encheu o rabo ali no Bar do Tonim e veio cair aqui na farmácia.
-
XLIII

Carlito era doido por festa. Dizem que ele dançava até o Repórter Esso. Tocou ele dança, diziam.
Num fim de semana, ele ficou sabendo de um baile de mutirão no Povoado de Matão e lá vai Carlito todo enfatiotado, destoando por completo dos trabalhadores rurais, donos da festa, que deram duro o dia inteiro no cabo da enxada, para terem direito ao baile, mas fugindo ao costume, ninguém ali implicou com ele. Pior, fizeram de conta que ele não estava lá.
Mas ele estava sim e estava bem vivo. Pregou seu olhos cumpridos de cobiça numa morena farturenta de saia justa e cabelos longos, que não dançava com ninguém, confidenciando a seu amigo Afonso Alves que ia dançar com aquela “morenaça”.
- Vai não Carlito. Parece que ela não dança. Melhor a gente não procurar encrenca.
- Carlito se fez de mouco e com a maior cara de pau convidou a moça para uma contradança, como dizia ele.
- Olha moço, o senhor me desculpe, mas eu só danço a .Filó tando.
- Eu também só danço afilotando. Sou o maior afilotador de Uruaçu.
- O senhor não entendeu. Meu marido só deixa eu dançar, a Filó, minha irmã mais velha tando na festa. Se eu dançar com o senhor, a Filó não tando, meu marido é capaz de dar um tiro no senhor, que nem ele fez com o que dançou comigo na festa da Água Branca.
- Nisso, se aproxima o marido: Quê que tá acontecendo aqui? Na cinta, um revólver que aos olhos do Carlito parecia mais uma metralhadora.. a mulher respondeu que não era nada não, que aquele senhor havia lhe perguntado se ela dançava e ela estava explicando que não sabia dançar.
- Esse senhor é Seu Carlito. Eu conheço ele. É gente boa de mais da conta, cê pode dançar com ele.
- Seu Carlito, o senhor pode dançar com minha mulher.
Carlito mal esperou terminar a música, chamou o Afonso, entraram no Jeep e deitaram o cabelo.

XLIV

No final do Capítulo XXVI, eu disse que ia mudar o rumo da prosa, para falar um pouco dos “causos” de Uruaçu. Mudei o rumo, contei alguns “causos”, que espero tenham servido para entreter-lhe um pouco. Agora, é hora de voltar a falar de mim mesmo, porque é para isto que estou aqui. Desta vez, o sucedido não é dos mais elogiosos à minha pessoa, até pelo contrário, tira esta minha máscara de destemido para mostrar o meu lado fraco, medroso.
Você deve imaginar que em Uruaçu, uma minúscula cidade perdida no Norte de Goiás, não era fácil ver um avião pousado no chão, que nem passarinho grande que desce do céu para vir botar ovo. E não era mesmo. Avião a gente só via roncando no céu, sumindo atrás da nuvens, indo rumo ao Norte ou rumo ao Sul. Mas aqui embaixo, no chão, para a gente espirar dentro dele, passar a mão, não. Não tinha. Por causa dessa máquina, os mais velho diziam: “carro andano sem boi e voano pelos are, é o fim das era”.
Pois, bem, naquela confusão do Bráulio Beltrão querer tomar a Prefeitura do Feliciano e ele, Feliciano, Ter sido obrigado a vir de avião, por causa da urgência, eu não poderia perder a oportunidade de conhecer de perto essa máquina maluca.
De fato, eu estava ansioso para que resolvesse o caso da posse e o Feliciano assumisse seu posto para ir ver o tal avião. Assim que as coisas serenaram na Prefeitura, peguei minha bicicleta e rapei para o campo de aviação. Na pressa, atropelei um cachorro, caí, ralei o braço, cotovelo, mas montei a bicicleta e segui a toda velocidade. No campo, falei com o piloto para deixar eu olhar o avião.
- O senhor pode olhar a gosto, não fumando aí perto porque é perigoso, no mais pode ficar à vontade.
Olhei, andei por baixo dele, passei a mão nas asas, mas não achei aquele trem muito seguro, não. Tudo de alumínio.... Deve quebrar à-toa, pensei.
Perguntei ao comandante se ele poderia dar uma volta comigo.
- Só o tempo de subir, dar uma voltinha e descer de novo, vinte mil reis. Quer?
- Quero.
Tirei duas pelegas de dez e dei a ele. Ele meteu o dinheiro no bolso e disse: pode subir.
Ele mesmo me afivelou o cinto de segurança, desceu e deu partida no motor, fazendo girar a hélice com as mãos. O diabo do bicho não tinha bateria.
Subiu, deu uma voltinha e desceu de novo. Não deu nem gosto.
Não achei graça nenhuma, disse ao piloto.
Ele, irritado, disse-me. Suba novamente. Agora é de graça. Não foi nada, seu menino. O homem azedou a paquüera. Voou de banda; subiu a prumo até o motor começar a morrer e embicou o bicho de cabeça a baixo como se fosse bater de frente com o chão; quando já estava bate não bate no chão ele fez uma manobra brusca e subiu novamente, para, em seguda, descer como se fosse uma folha seca caindo do céu.
Acho que gritei como um desvalido. Quando o avião parou na pista, eu não consegui descer, com as pernas tremendo e o suor correndo às bicas. Passei muitas noites sem dormir direito, por causa dos pesadelos. Às vezes, altas madrugadas, estava dormindo e abria a boca a gritar que o avião vai cair e acordava agarrado à cabeceira da cama. Demorei quase um ano para recuperar-me completamente.



XLV

Apesar de minha rápida subida na escala social, ou, talvez, até em face dessa rapidez, ressentia-me da falta de conhecimentos. Por isso, convidei um amigo, Sebastião Cipriano de Souza, que padecia do mesmo mal, e juntos contratamos um professor particular para nos preparar para os exames de “Madureza” ou “artigo Noventa e Um”, programa oficial que visava dar oportunidade de aprendizado a adultos, tal como é atualmente o “Supletivo”.
O professor escolhido foi o jovem Promotor de Justiça, Dr. Cristovam. A escolha levou em conta o talento e os conhecimentos do escolhido e, ainda, sua boa vontade em ajudar-nos na busca desse objetivo de real importância na vida de qualquer pessoa.
Graças aos conhecimentos adquiridos nesse curso foi que pude aperfeiçoar-me na profissão de dentista e, ainda, ocupar a invejável e disputada posição de “VENERÁVEL” da Loja Maçônica local.

XLVI


O leitor, por certo, está lembrado que iniciamos esse “causos” de Uruaçu comigo atendendo uma ligação telefônica de um cliente de Figueirópolis, no Estado do Tocantins, marcando uma consulta dentária para sua filha. Deve lembrar-se, também, de que quando Tizeco mandou chamar-me para aquela reunião na casa dele para tratar daquele caso do Presidente da Câmara Municipal estar usurpando o cargo de Prefeito das mãos do Felicianao, eu estava descansando de um árduo dia de trabalho, quando havia atendido um paciente com problema de uma extração de dente mal resolvida por parte de um colega de profissão.
Há alguma coisa errada em tudo isso, haverá o leitor de pensar: Luiz foi viandante de mala às costas, foi servente de pedreiro, sapateiro, dono de sapataria, mas daí até o exercício dessa importante profissão de dentista há uma enorme distância.
Acontece que em 20 de dezembro de 1944, tomou posse como Prefeito nomeado de Uruaçu o Sr. Francisco de Oliveira Barreto que ficou no cargo até 20 de dezembro de 1945. Barreto ou Barretão era dentista. Na ocasião que foi prefeito, tornamo-nos bons amigos, tendo ocorrido com a gente um fato bastante engraçado. Ele ia a Goiânia a miúdo, então, como eu tinha muita vontade de comprar uma motocicleta, pedi a ele que comprasse uma e, aqui eu a compraria dele, desde que não exagerasse no lucro. Ele trouxe a moto e nós fomos experimentá-la, visitando os trabalho de escavação para construção da rodovia Belém-Brasília na Serra de Santana a quatro quilômetros da cidade. Fui pilotando e o Barreto foi na garupa. Lá, próximo à frente de serviço, havia muita valeta no leito da estrada em construção, porquanto a terra solta se afundava com a passagem dos caminhões pesados, deixando regos profundos. Achei de guiar a moto por dentro de uma dessas regueiras, de sorte que o veículo rodava lá no fundo e o Barreto não tinha como agasalhar as pernas, mantendo os pés no lugar apropriado, porque a valeta era estreita, mal cabendo a motocicleta. Por isso, ele levntou as pernas, mas em dado momento, por causa do cansaço, colocou os pé no chão e acabou se levantando do selim e ficando em pé. Não vi que ele havia se desligado da mota, acelerei e ele ficou em pé com as pernas arreganhados sobre a valeta. Vim embora para a cidade e ele ficou lá sozinho no meio da estrada. Somente vim a dar pela falta de meu amigo quando cheguei em casa. Se tivesse experiência em dirigir motocicleta, teria notado que ela ficara muito mais leve, mas aquela era a primeira vez que eu pilotava, não percebi o detalhe. Em casa, com a falta do passageiro, levei um baita susto. Pensei que o homem tivesse caído da garupa e morrido. Preocupado, voltei imediatamente a procurá-lo pelo caminho.
Chegando à serra, lá estava Barretão agitando os braços e me xingando.
Mas como eu dizia, Barreto, além de Prefeito, era dentista e em face de nossa grande amizade ofereceu-se para ensinar-me a arte dentária. Aceitei e, graças a Deus, tornei-me um profissional respeitado e admirado, angariando uma respeitável clientela, tanto no que tange ao número, quando à qualidade.


PRÓLOGO

Ao longo da vida, o homem sofre muitas mudanças. Algumas são ótimas, como aquelas em que se adotam melhores hábitos de vida, no que toca à higiene, à saúde e ao respeito aos direitos de outrem. A propósito, há algo que se prenuncia neste momento que, a meu ver, vai revolucionar a forma de exploração dos recursos naturais, com grandes benefícios para a humanidade. A esse respeito, prevejo grandes mudanças no comportamento humano, que penso seja inevitável e que se avizinha rapidamente, podendo ser definida – essa mudança - como uma tendência que está tomando conta do mundo no sentido de se dispensar maior respeito à natureza, fenômeno que alguns estudiosos vêm chamando de “preservação do meio ambiente”. Essa mudança que deve envolver toda a raça humana, pode ser definida como um fenômeno mundial.
No particular, o homem sofre mudanças comportamentais menos abrangentes, porém não menos importantes para aqueles nelas envolvidos.
É o caso, por exemplo, daquele que por força de um progresso material – financeiro ou intelectual -, vê-se inserido em um grupo social diferente do seu de origem.
Neste particular, penitencio-me pelos pecados que cometi, relegando a segundo plano aqueles que me ampararam no começo da vida e de minha ascensão social, inclusive a família dos companheiros de viagem, na vinda para Santana e que, aqui, me acolheu e me abrigou.
Agora, avançado nos anos, reconheço essa falta e hei de repará-la ainda que a custa de pesados sacrifícios.

FIM

Mariano C. Peres
Uruaçu, 20 de fevereiro de 2004
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